sexta-feira, 17 de março de 2017

Deus nos educa

 
Existe, mas não espera que acreditemos em Sua Existência.

Ama-nos, mas não nos concede privilégios.

Escuta-nos as petições, mas não atende aos caprichos.

Orienta-nos, mas respeita nosso livre-arbítrio nas decisões.

Auxilia-nos, mas não nos substitui no esforço a ser feito.

Aponta-nos o caminho, mas não impede que dele nos desviemos.

Quer a nossa alegria, mas não nos evita a tristeza.

Dá-nos a semente, mas nos faz responsável pela semeadura.

Ampara-nos, mas, se assim desejamos, não nos impede de cair.

Quer-nos hoje, mas nos aguardará pelo tempo que for preciso.

Sempre fará por nós a parte que Lhe compete, mas não a parte que a nós compete fazer.

Carlos A Bacceli - Irmão José - livro Amai-vos uns aos outros 

segunda-feira, 6 de março de 2017

Um minuto com Chico Xavier


 
Chico tinha pouco tempo para estripulias profanas. Carregava um vulcão na cabeça. As erupções, incessantes, geravam bateladas de livros. Em 1940, ele lançou três novos títulos e ainda faltavam dezenove para ele atingir a cota de trinta combinada com Emmanuel.

Mas os romances e poemas do além causavam menos impacto do que os textos que ele começava a escrever em sessões realizadas entre amigos espíritas: os recados enviados do céu por parentes mortos a suas famílias.

Naquele ano, Chico colocou no papel uma carta assinada por um garoto de onze anos, Sílvio Lessa, destinada a seu pai, Amaro. O menino tinha morrido e mandava lembranças do outro mundo. Estava feliz. Sua morte foi útil.

Graças ao sofrimento provocado pela morte do garoto, seu pai se aproximou do Espiritismo e passou a ajudar crianças pobres. Sílvio estimulava a caridade paterna no texto escrito por Chico: "Quando for em auxílio dos pequeninos desfavorecidos pelo mundo, o seu coração há de me ver no sorriso de todas as crianças a quem estimar como seus próprios filhos..."

Para os críticos distanciados, o texto pecava por pieguice.

Para a família, as frases provavam a sobrevivência do morto e davam novo sentido à vida.

 O pai apostou em cada palavra da carta: Ela é absolutamente autêntica. Sílvio tocou em pontos absolutamente, cuja realidade é indiscutível.

Em sua carta, o garoto contava uma parábola indiana ouvida no colégio. 
A história era exemplar:
 um camponês tentava atravessar um rio com uma vaca e um bezerrinho. Mas a vaca se recusava a fazer a travessia. Ele empurrava, puxava, chicoteava o animal, mas nada. 

Exausto, após várias tentativas frustradas de mover o bicho, ele segurou o bezerro nos braços e atravessou o ribeirão. Para alcançar o filhote, a vaca finalmente se mexeu e passou de uma margem à outra.

A parábola guardava uma lição dolorosa: o afastamento, ou melhor, a morte de um filho, serviria, muitas vezes, para levar a pessoa ao outro lado da vida. Ao Espiritismo, por exemplo. As chamadas "mensagens particulares" ainda eram raras. Só a partir de 1967, após completar quarenta anos de contatos com o além, Chico receberia em sessões públicas, todas as semanas e em série, os recados de mortos para a família. Muitos céticos seriam convertidos.

As sessões com a presença do Dr. Bezerra de Menezes e os recados do outro mundo serviam à divulgação do Espiritismo. As pessoas chegavam a Pedro Leopoldo em busca de ajuda médica, de conselhos espirituais ou de textos do além e voltavam para casa com livros embaixo do braço. De autógrafo em autógrafo, Chico difundia as lições de Allan Kardec, defendia a vida após a morte, consolava. Mas às vezes ficava inconsolável.

Em 1941, a viúva de José Cândido Xavier, Geni Pena, enlouqueceu. As rezas, os passes, as sessões de leitura do Evangelho no Centro Luiz Gonzaga foram inúteis. Chico teve de internar a cunhada num hospício em Belo Horizonte. Arrasado, ele acompanhou a doente até o quarto, ficou ao seu lado algumas horas e voltou para casa à noite.

Estava arrasado. O filho caçula da moça, paralítico, chorava na cama, sozinho. Chico se ajoelhou e começou a rezar. As lágrimas corriam, ele se lembrava do irmão, se sentia culpado, impotente. De repente, Emmanuel entrou em cena, incomodado com a choradeira:

- Por que você chora?

Chico contou o drama da cunhada, lamentou a situação do sobrinho e foi interrompido por um sermão do recém-chegado:

- Não. Você está chorando por seu orgulho ferido. Você aqui tem sido instrumento para cura de alguns casos de obsessão, para a melhoria de muitos desequilibrados. Quando aprouve ao Senhor que a provação viesse para debaixo de seu teto, você está com o coração ferido, porque foi obrigado a recorrer à assistência médica, o que, aliás, é muito natural. Uma casa de saúde mental, um hospício, é uma casa de Deus.

Chico ouviu as críticas em silêncio, mas, entre um soluço e outro, pediu a recuperação da cunhada o mais rápido possível. O discurso se estendeu:

- Imaginemos a Terra como sendo o Palácio da Justiça, e a mulher de José como sendo uma pessoa incursa em determinada sentença da justiça. Eu sou o advogado dela e você é serventuário do Palácio da Justiça. Nós estamos aqui para rasgar ou para cumprir o processo?

Para cumprir, respondeu Chico e, ainda aos prantos, insistiu: O senhor tem que saber que ela é minha irmã também.

Emmanuel perdeu a paciência de vez:

- Eu me admiro muito, porque, antes dela, você tinha lá dentro, naquela casa de saúde, trezentas irmãs e nunca vi você ir lá chorar por nenhuma. A dor Xavier não é maior do que a dor Almeida, do que a dor Pires, do que a dor Soares, a dor de toda a família que tem um doente. Se você quer mesmo seguir a doutrina que professa, em vez de chorar por sua cunhada, tome o seu lugar ao lado da criança que está doente, precisando de calor humano. Substitua nossa irmã e exerça, assim, a fraternidade.

Chico engoliu o choro, enxugou o rosto e abraçou o sobrinho.

Do livro As Vidas de Chico Xavier , de Marcel Souto Maior.